quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

ESTRESSE, COGNIÇÃO E SAÚDE MENTAL



O estresse é uma resposta fisiológica do indivíduo à um agente estressor, ou seja, é algo que pesa, causa tensão. Pode ter efeitos protetores à medida que ajuda o organismo a se proteger de estímulos perigosos que desencadearam o estresse. No entanto, em doses crônicas pode ter efeitos prejudiciais e insidiosos. Uma breve descrição da fisiologia explana alguns efeitos:

O hormônio cortisol quando é liberado na corrente sanguínea, atua em todo o organismo, mobilizando reservas de energia e promovendo a imunossupressão, preparando-nos para prosseguir frente à vários agentes estressores. Um bom estímulo para a secreção de cortisol é o estresse, desde estímulos fisiológicos quanto psicológicos e emocionais.

Neurônios situados no hipotálamo liberam um peptídeo chamado hormônio liberador de corticotropina (CRH) para o sangue. O CRH viaja até a hipófise, onde em 15 segundos estimula a liberação de corticotropina ou hormônio adrenocorticotrópico (ACTH). O ACTH é liberado na circulação geral e viaja até o córtex adrenal, onde em poucos minutos, estimula a produção de cortisol.

O hipocampo (estrutura que atua na formação da memória) auxilia a eliminar a reação do de estresse, no entanto, em situações de estresse crônico, pode haver destruição das células nervosas do hipocampo, o que resulta em um excesso de secreção de cortisol. Ao longo do tempo, esse comprometimento do hipocampo pode trazer problemas cognitivos, especialmente para a memória e até mesmo, iniciar um quadro demencial. Além disso, o excesso de cortisol também resulta na redução do sistema imunológico.



                                   Figura 1 – Fisiologia do estresse (Bear, 2008)


Portanto, os fatores psicológicos e sociais podem influenciar diretamente os processos biológicos. Doenças como o câncer, problemas cardiovasculares, hipertensão arterial, dor crônica podem estar relacionadas com eventos estressores ao longo da vida. Além disso, pesquisas têm mostrado que o estresse crônico causa o envelhecimento prematuro do encéfalo, doenças psiquiátricas e neurológicas.

A irritação pode influenciar as funções cardíacas podendo alterar significativamente os batimentos cardíacos. Reprimir hostilidade ou irritação pode aumentar a pressão sanguínea e ocasionar problemas cardiovasculares. O excesso de preocupação, dificuldade para relaxar, impaciência, autocrítica elevada também são grandes propiciadores de estresse. Outro fator muito importante na influência do estresse é que a previsibilidade e a capacidade de ter controle em relação aos eventos da vida são condições que parecem ter íntima ligação com a redução do estresse. Ou seja, a instabilidade (financeira, pessoal, amorosa, econômica) pode ser um grande desencadeador do estresse.

O que fazer então, para reduzir o estresse, promovendo e prevenindo a saúde? Alguns métodos podem ser eficazes, lembrando que isso deve ser ajustado a particularidade de cada um.  A meditação pode ser uma fonte eficaz de relaxamento, podendo reduzir significativamente o fluxo dos hormônios do estresse. Mudanças de estilo de vida também são bem vindos, como deixar de fumar, praticar exercício físico e adquirir hábitos alimentares mais saudáveis. E para potencializar e otimizar todos esses fatores, a psicoterapia pode ter efeitos muito efetivos à longo prazo, promovendo mudanças psicológicas e emocionais significativas, auxiliando também na construção de estratégias eficazes para o enfrentamento do estresse.

Referências:
Bear, M. F; Connors, B.W; Paradiso, M.A. Neurociências: desvendando o Sistema Nervoso. Porto Alegre: Artmed, 2008.

Barlow, D.H; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma abordagem integrada. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

Barry S. Okena, B.S; Wakeland, W; Chaminea, I. Systems approach to stress, stressors and resilience in humans. Behavioural Brain Research 282 (2015) 144–154

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Clínica da memória e cognição: INTUIÇÃO

Clínica da memória e cognição: INTUIÇÃO: Você sabe o que é intuição? Existem muitas teorias...A intuição é o que dá norte a muitas de nossas ações, indispensável para uma...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

INTUIÇÃO




Você sabe o que é intuição? Existem muitas teorias...A intuição é o que dá norte a muitas de nossas ações, indispensável para uma tomada de decisão favorável e adaptativa. Quantas informações nosso cérebro codifica sem percebermos? Um estudo publicado revista Nature Neuroscience constatou que decisões baseadas na memória implícita (aquela que usamos sem nos darmos conta, como dirigir ou andar de bicicleta) pode ser mais vantajosa do que baseadas na memória consciente (ver reportagem completa na revista mente cérebro, fevereiro de 2009). O neurologista Luiz Otávio Cavallazzi faz uma breve narração, relatando a importância da intuição desde os povos primitivos:

“Uma névoa.. Estamos na idade da pedra... Tenho que sair à caça! Minha família sobreviverá só com isso... Não posso falhar...Tenho intuições (de medo, acontecimentos mordazes, etc.). Não posso morrer! Algo me avisa que um perigo me afaga...

No cérebro, um dos órgãos mais arcaicos é a amígdala. Ela que me avisa do perigo e que avisa o lobo frontal. Fugir ou lutar, essa é a questão! A partir disso, que foram criados os estímulos intuitivos”

Esse relato foi apenas um exemplo de como os processos instintivos e emocionais exercem grande influência nas tomadas de decisões intuitivas. É como se um sábio interior estivesse nos alertando dos perigos e até mesmo, as decisões que nos são mais vantajosas. Memória, aprendizados, conhecimentos, com o tempo, vão tornando a nossa percepção mais aguçada e potencializando nossa capacidade intuitiva. Esse sábio interior, que muitas vezes é temido ou não escutado, deveria merecer uma maior atenção, pois ele contém um conhecimento que apenas nossas experiências podem nos dar, e para isso, é preciso confiar nessa sabedoria – uma forma de nos guiar para nossas potencialidades!


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Clínica da memória e cognição: ESQUECIMENTO

Clínica da memória e cognição: ESQUECIMENTO: ESQUECIMENTO “O aspecto mais notável da memória é o esquecimento” (MacGaugh) Quando tentamos recordar situações antigas, muitos ...

ESQUECIMENTO


ESQUECIMENTO



“O aspecto mais notável da memória é o esquecimento” (MacGaugh)
Quando tentamos recordar situações antigas, muitos detalhes se perdem, esvaecem, desaparecem da memória...ou seja, há mais esquecimento do que memória!
Lembramos de aspectos mais gerais, e quanto mais antigo o acontecimento, mais provável não lembremos o momento, data, como estava o clima, a idade exata...confundimos as memórias! Elas se misturam, a ponto de não discriminarmos com clareza alguns rostos, cheiros, palavras...
A memória é aquilo que nos identifica como indivíduos únicos, somos aquilo que lembramos, ou até mesmo, o que não evoca a consciência mas que esta lá em algum lugar do cérebro, guardadinho, pronto para ser usado no momento certo! As emoções têm um papel fundamental no fortalecimento das memórias, são moduladas por processo neuro-humorais e hormonais que facilitam a evocação daqueles momentos que marcaram, foram prazeirosos ou cheio de significados na vivência.
E porque esquecemos? Aquilo que não nos é mais útil, dá lugar a novas memórias mais importantes. Imagina a loucura que seria se não esquecêssemos os problemas e vivências anteriores, se eles se misturassem com as memórias mais atuais o tempo todo, que bagunça, não? O esquecimento é adaptativo, inibe informações irrelevantes para que seja possível selecionar lembranças mais favoráveis ao indivíduo. A falta de uso das conexões cerebrais (sinapses) proporciona o esquecimento, pois o desuso das sinapses ocasiona as perdas das funções por atrofia – é daí que vem a famosa frase: “a função faz o órgão”.
Muitos se queixam de não saber onde estão certos objetos que não lembram onde colocaram, esquecem o que iam fazer, esquecem nomes de pessoas, lugares, ruas, artistas famosos, detalhes de conversas, filmes ....aquilo que vai caracterizar se esses esquecimentos são patológicos é a frequência e nível de prejuízo funcional na vida diária que eles causam.
A memória tem sua funcionalidade, é adaptativa, é vida! E quando ela falha, a ponto de prejudicar a funcionalidade na vida diária? Ai vem a importância de poder avaliá-la com um profissional especializado, a fim de construir estratégias para melhorar a qualidade de vida, ou até mesmo, para ajudar a amenizar as angustias que essa perda provoca, especialmente no envelhecimento, pois nem todos estão preparados para aceitar que não são mais os mesmos que antigamente.

Izquierdo, I. A arte de esquecer. Rio de Janeiro: Vieira&Lent, 2004.

Baddeley, A; Anderson, M.C; Eysenk, M.W. Memória. Porto Alegre: Artmed, 2011.